ExpoTapejara

Confissões de um corpo que não é meu


POR: Juliana Seben
20-10-2021 - 10:29
COMPARTILHAR
icon-facebook icon-twitter icon-whatsapp
1991 visualizações

O meu corpo não pertence a mim.

É daqueles que o desejam, também dos que o desprezam, dos sem coragem de assumir suas próprias inseguranças e que são projetadas em mim.

É dos que o “comem”.

Dos que o assediam.

Dos que o repudiam.

Ele é usado nos grupos de WhatsApp de quem, no fundo, odeia mulheres.

É compartilhado em imagens por quem o enxerga como um bem comum.

É tomado como algo possível independentemente da minha vontade, basta o desejo.

Ele é exposto na roda de amigos no bar, na rua, em casa.

É escrachado por quem tem fobia à diversidade de formas.

É julgado por quem pensa que meu peito é pequeno demais ou minha coxa é grande demais.

Tudo é demais. Ou de menos.

Se eu mostro, sou puta.

Se escondo, sou santa.

Em movimento, é preciso respeitar os limites, caso contrário, é visto como um convite ao coito.

Ao corpo que amamenta não é permitido que se faça em público, meu mamilo é erotizado a qualquer custo.

Ao mesmo tempo, quando corpo de mãe, se torna imaculado e, por isso, só um tipo de comportamento é tolerado. 

Também fazem eu odiar meu corpo, que recebe essa herança de uma guerra injusta.

E luto contra o tempo, contra a gravidade, contra o caminho natural de envelhecer.

Meu corpo é filho, neto, bisneto de quem também perdeu a posse de sua própria morada. 

É público, e muito novo ou muito velho pra começar. A idade certa tem corpo masculino. 

Meu corpo usa o pronome possessivo errado, pois objeto que é, nem deveria se chamar de meu.

ÚLTIMAS NOTÍCAS

plus VER MAIS NOTÍCIAS

MAIS LIDAS DA SEMANA

MAIS LIDAS DA SEMANA

VER MAIS NOTÍCIAS

OPINIÃO

TOP 10